
5/8/2008 15:51:25
Piedade
Ex-guarda Mário Wilson pede "piedade" ao presidente Lula
Um dos poucos políticos a se interessar pelo drama dos ex-guardas da Sucam, a deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC) visitou na última quinta-feira, 31, Mário Wilson da Silva.
| Diego Gurgel |
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| Mário Wilson já teve metade da perna amputada por problemas de circulação. |
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Ao prometer que iria denunciar o problema na Câmara Federal e levá-lo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a deputada perguntou o que o ex-guarda pediria ao presidente. Com um esforço sobre-humano, porque já está com as mãos e pernas praticamente paralisadas, mal consegue também articular algumas palavras, o ex-guarda apertou forte a mão da deputada, balbuciou: - Piedade! De todas as doenças que o Dicloro-Difenil-Tricloroetano, o DDT, pode causar em humanos e animais com sua contaminação - edema pulmonar, câncer, cirrose, doenças car-diovasculares, distúrbios mentais, tosse, rouquidão e outras - o ex-guarda Mário Wilson da Silva parece ter sido acometido de todas, tal o estado lastimável em que se encontra. Nos últimos sete anos em que a contaminação se manifestou, seu corpo foi definhando, até prostrá-lo na cama, de onde não mais se ergueu. Há dez dias, a circulação sangüinea estancou de vez na perna direita. Alegando apenas que se tratava de uma doença "cardio-vascular", sem investigar as origens, o médico amputou a perna na altura do joelho. Mário Wilson mora numa rua estreita do bairro São Francisco. Por ironia, os muros de algumas casas vizinhas ainda exibem pinturas de jogadores e slogans da última Copa do Mundo. Na última quarta-feira, ele recebeu a visita do cunhado Aldo Moura e dos repórteres de A GAZETA. Tentou levantar da cama para receber as visitas. Não conseguiu, começou a chorar um choro contido, sentido. De modo geral, os pacientes desabafam, choram muito. Ou de dores, revolta e mesmo como mais uma seqüela da intoxicação, que provoca distúrbios mentais e emocionais. Por gestos, porque a contaminação do inseticida afetou também a laringe e lhe roubou a fala, disse que estava bem. Não estava. Sua mulher, dona Albanita Moura da Silva, contou que, além da circulação, ele se queixa de dores nos quadris, provavelmente, provocadas pelo mau funcionamento dos rins. A mulher fez questão também de levantar o lençol que o cobria. A pele seca, encerada, pregava nos ossos. Definitivamente, Mário Wilson não estava bem. Tanto é que na sexta-feira, teve que ser internado outra vez no Hospital Santa Juliana. Com as ataduras da primeira cirurgia ainda supurando, o diagnóstico do médico foi mais cruel ainda: a circulação não voltara, seria necessário amputar o resto da perna na altura da virilha. Ao dar a notícia, o cunhado Aldo Moura, que vem acompanhado a agonia de Mário Wilson nesses sete anos e a de outros companheiros, não disse quem "será o próximo". Também, não precisava. Com o feijoense José Lacerda, que morreu na madrugada de sábado, o desfecho foi mais rápido. Segundo a mulher Rosilda, que o assistiu até a última hora, ele foi internado no dia 10 de julho. Ainda conseguia andar, falar. O médico que o assistiu, porém, disse que ele tinha câncer na coluna, tumor na cabeça, que "não adiantava operar; estava sem jeito". Mesmo que o médico, mais uma vez, não lhe tenha dito ou pelo menos procurado investigar, através de exames laboratoriais, a verdadeira causa de tantas complicações, dona Rosilda sabia que o marido "estava (mesmo) sem jeito". Preocupada com os dois filhos ainda pequenos, uma menina de apenas um ano, e o menino de oito, queria apenas que a ajudassem a transportar o corpo do marido até Feijó. Magoada, desabafou: - Este foi o pagamento que ele teve por mais de vinte anos de serviço na Sucam e passar até de três, quatro meses na mata borrifando as casas, para salvar os outros da malária". Depois de anunciar a nova internação do cunhado Mário Wilson e a morte de José Lacerda, a lista do incansável Aldo Moura ainda não estava completa. Na sexta-feira, soubera que outro ex-guarda também havia dado entrada no Santa Juliana. Lá se foi ele. No leito 117, encontrou o velho amigo João Martins de Souza, 62 anos. Apesar de todas as evidências sobre os males causados pela intoxicação, a desinformação é também um mal entre os próprios pacientes e seus familiares. Como outros ex-guardas, João Martins já não consegue falar nem andar, o rosto parece esculpido em cera. Porém, o filho Jorgenei, que o assistia naquela tarde, admitiu que, no começo, achava tratar-se apenas de uma pneumonia, que o pai estava inclusive melhor. Só nas últimas semanas é que soube, através de algumas notícias publicadas nos jornais, que a pneumonia do pai não é uma simples pneumonia contraída por um resfriado, mas que pode ser um edema pulmonar. Aliás, o amigo Aldo Moura parece saber mais sobre o ex-guarda do que o filho, ao informar que o conhece de longa data e que durante 16 anos o viu trabalhar diretamente em contato com o inseticida na tarefa da borrifação. Só, então, o filho Jorgenei lembra que, quando ainda falava, o pai se queixava de dores de cabeça, tonturas e insônia. Afirmar que a contaminação pelo Dicloro-Difenil-Tricloroetano, o DDT, pode causar distúrbios mentais seria, talvez, uma temeridade ou exagero. Não é. Na tarde daquela mesma sexta-feira, Aldo Moura fez questão de levar os repórteres de A GAZETA até ao bairro da Estação Experimental. Preveniu, entretanto, que talvez não conseguissem "uma boa entrevista". Em uma das tantas ruelas que cortam o bairro, Aldo Moura e os repórteres encontraram José Pereira dos Santos, outro ex-guarda e mais um de sua lista. Surpreendentemente, naquele dia, o ex-guarda se mostrava lúcido. Só com muita dificuldade de articular as palavras. Quase inaudível, contou que durante mais de 20 anos "mexeu com o veneno", que seus problemas começaram com tonturas e fortes dores de cabeça, chegando a perder a consciência por alguns tempos. Como sentisse também "formigamento" nas pernas, achou que se devia aos períodos de longa exposição com a água, nas travessias dos igarapés e igapós, para chegar até à casa dos seringueiros e colonos. Atualmente, tem consciência que foi o DDT que o intoxicou, embora, ao ir buscar tratamento em Goiânia, o médico achou graça de sua voz rouca e o apelidou de "goguento", em alusão ao "gogo", doen-ça que ataca as galinhas. Mais um médico, um doutor, que na sua imperdoável ignorância, não sabe que a contaminação pelo DDT provoca também tosse, rouquidão e irritação laringotraqueal.
Fonte: A Gazeta
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