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5/8/2008 15:46:46

O DDT
Do prêmio Nobel à tragédia na floresta

Levando-se em conta que o Dicloro-Difenil-Tricloroetano, o DDT, deixou de ser usado no combate à malária há 12 anos no Brasil, a pergunta obvia que se faz é por que só agora os ex-guardas da Sucam estão reclamando e denun-ciando que foram contaminados pelo inseticida e estariam inclusive morrendo, como já teria acontecido com mais de 40 deles no Acre?

A pergunta faz sentido, porém, a rigor, não é a eles que deve ser dirigida. Aliás, eles podem até se ofender e com razão.

A resposta científica é a de que o DDT acumula-se nos seres vivos, no caso do homem no fígado, rins e na glândula tireóide e pode demorar de quatro a 30 anos para se degradar.

Saudado como um dos inseticidas mais eficazes no combate a endemias, o pesticida valeu ao seu descobridor, o químico suíço, Paul Müller, o prêmio Nobel de Medicina, em 1948. Além de eficaz, é barato e por isso foi muito utilizado durante a Segunda Guerra Mundial no combate aos mosquitos da malária e do tifo.

Em 1950, já era usado também no Brasil no combate à dengue. Nas décadas de sessenta e setenta, durante os governos militares, tornou-se obrigatório no combate à malaria na Amazônia, a qual, os militares queriam "integrar para não entregar". Porém, livre da malária, para atrair investidores, e para a honra e glória do regime, que não admitia surtos de meningite ou endemias de malária e outras doenças.

Foi neste período que Aldo Moura e cerca de 500 companheiros foram alistados como guardas da Sucam. Homens simples, sem instrução, Aldo Moura e José Rocha de Aguiar contam que ao se apresentarem para o trabalho de borrifação recebiam apenas um uniforme cáqui e um capacete de alumínio, supostamente para protegê-los contra os danos do inseticida. Supostamente, porque de pouco ou nada servia o capacete, já que no ato da borrifação o rosto ficava descoberto e acabavam inalando o veneno.

Sem receberem qualquer tipo de orientação, contam que usavam os baldes que continham o inseticida para apanhar água nos igarapés para o banho e até para cozinhar. Ou dormiam sobre os sacos que continham o veneno. Como ao voltarem para casa, suas mulheres também se contaminavam ao lavar os uniformes.

Aldo Moura garante que duas delas teriam morrido intoxicadas e outras sentem ainda as conseqüências. Dona Albanita, mulher de Mário Wilson, confirma que sente até hoje "ardência" na pele. Como a desinformação permanece até hoje, alguns chegam a afirmar que a contaminação pode ter-se dado também pelas relações sexuais.

Mesmo que  em 1970  já se denunciasse os efeitos deletérios do DDT, como no livro "Primavera Silenciosa" da bióloga norte-americana, Rachel Carson - embora ela estivesse mais preocupada com o envenenamento do falcão peregrino e da águia careca - na Amazônia e por inclusão no Acre, segundo Aldo Moura, era até proibido levantar qualquer suspeita.

Além disso, com a proibição do uso do inseticida nos Estados Unidos nos anos setenta, o Brasil ficou com um grande estoque do produto. Apesar das advertências sobre as conseqüências danosas à saúde, o governo resolveu usá-lo. Seguiu a "lógica das cobaias", segundo a qual o que é nocivo para os povos do primeiro mundo não é para os do terceiro mundo.

A ordem, porém, era borrifar o máximo e alcançar os lugares mais remotos da Amazônia. Mesmo que os guardas da Sucam fossem enxotados como "urubus" das casas dos seringueiros e colonos, devido ao forte cheiro que o inseticida exalava. Além do alto teor tóxico que matava animais domésticos.

A propósito de "cobaias", Aldo Moura denuncia também que, além da exposição ao veneno, eram obrigados a servir de "cobaias" para apanhar o mosquito da malária, o Anofelino. O método era o mais rudimentar. Tiravam as calças. De cuecas ou bermudas ficavam horas expostos para os mosquitos atacarem e serem recolhidos por uma rede. "Se estavam infectados, era malária na certa", diz.

A ordem, porém, era borrifar, borrifar sempre, sem parar. José Rocha Aguiar, 59 anos, 38 de profissão, conta que não viu nenhum dos seus três filhos nascer, porque passava até seis meses embrenhado nas matas. Aldo Moura emenda que casou num dia e no dia seguinte já estava na floresta. Voltou só três meses depois para continuar a lua-de-mel.

Percorriam longas distâncias a pé e iam tão longe que até o padre Paolino Baldassarri, que conhece todos os seringais do Vale dos rios Purus e Iaco, admitiu que chegou depois de um ex-guarda da Sucam na casa de um seringueiro na divisa do Acre com o Peru.

Por essas e outras razões, não é a eles, portanto, que se deve fazer a pergunta "por que só agora?". O fato é, explicam Aldo Moura e José Rocha, que de uns anos para cá passaram a observar e contar que seus ex-companheiros começaram a adoecer. Um, dois, três, meia-dúzia pode-riam até ser mera coincidência. Porém, segundo levantamento que fizeram, 41 já morreram, 11 estão com câncer, 12 com doenças cardiovasculares e oito mutilados. Não contando os que morreram sem passar pelos hospitais e nos atestados de óbitos consta apenas que faleceram "sem assistência médica".

- É evidente que o nosso trabalho foi importante, que salvamos muitas vidas, que o DDT realmente funcionou no combate à malária, mas não é justo agora que paguemos o preço com as nossas vidas. Queremos justiça" - diz Aldo Moura.

Por justiça, pretendem uma indenização a eles e às famílias que perderam os pais. Com a extinção da Sucam, uma parte dos ex-guardas passou para a Funasa, outros para os estados e municípios e outros ainda já se aposentaram por invalidez. Recebem em média pouco mais de R$ 1 mil, do qual alguns reclamam que gastam mais da metade só com a compra de medicamentos.




Fonte: A Gazeta
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